A SERRA MÁGICA
Ainda subo com pés descalços
A serra mágica da minha infância.
Cipós Sagrados, Mangueiras Bíblicas, Salgueiros de Eros
Feixes de bambus alucinados de um mico-leão dourado inventado por meu pai
E maritacas estridentes zunindo cores quentes à íris de minha mãe.
A mata da serra da minha infância,
De troncos e raízes atlânticas,
Da grande pedra negra rachada de águas,
Dos caminhos de fendas por entre o verde-chumbo.
Ainda subo com pés descalços esta terra de numes inauditos,
Ainda piso seu úmido na memória e apanho seu frio.
Eu estou quieto no banco de trás.
Não dá para saber a hora que o tempo ainda está molhado.
Peço para abrir o vidro e sinto o ar depois da chuva.
Não escuto a borracha no asfalto ruim, o motor, a conversa, nada.
A mata girando conflitos e maravilhas na janela.
Esta entropia ventando no meu rosto de menino.
A mata com suas clareiras
Para se ter visão de santos ou a primeira noção de sexo,
Que foi o cheiro de frutas estouradas no chão.
Ainda avanço as sendas da serra mítica,
As curvas proibidas do seu sumidouro.
O carro ora suicida, ora vagaroso,
Gostosamente tonto naquela silhueta.
E eu intumescido de todas as vontades:
De chegar logo na casa da fazenda
E de me entorpecer até sonhar com o futuro.
Pois a mata da serra dividia dois mundos:
O meu e o meu futuro
Que entrevia brilhante na luz gotejada das folhas,
Como lâmpadas que as crianças sempre acham em qualquer escuro.
Terríveis também eram as assombrações do futuro
Mas meu assombro suspirava entusiasmo
Como fazem as crianças ouvindo histórias de seres mágicos.
A mata da serra da minha infância
A floresta encantada que não era
Revelava-me que ouro submerso?
Havia, de certo, cidades afundadas no espelho de suas cachoeiras.
Havia cidades magníficas:
Megalópoles americanas,
Centros fumegantes europeus,
Baías carnavalescas!
Durante aqueles minutos eu tinha muitas profissões interessantes, tinha amores e descobria corpos nus, tinha amigos e tocava instrumentos musicais, conhecia Alexandria, fumava com barões e fazia revoluções de tal ordem que era muito surpreendente que eu estivesse, na verdade, escondido no mato.
Nosso segredo era este,
Pelo prisma do entre folhagens,
Meu futuro eram cidades.
Genitais e barulhentas.
E eu as queria...
Assustado... eu as queria...
Naquele feitiço de caboclo espírito da mata,
Vendo e supondo tudo por dentro da gota d’água,
Eu queria o futuro mundo todo...
E sorria calado disso encolhido no banco de trás,
Como fazem as crianças que querem mas se doem de crescer.
A serra atravessada ia ficando para as nuvens.
Já avistávamos os morros baixos da fazenda,
Esmaecidos n’aguarrás da tarde.
E os primos acenando mãos de lama na porteira,
Ingênuos de tudo.
Entretive-me e, num salto, envelheci soterrado de cidades.
Tornei-me um homem concreto.
Foi rápido, sem glória e sem deus.
Por isso, ainda hoje subo com pés descalços a serra da minha infância
E árvores fantasmas se erguem a cada passada.
Eu dedilho a harpa de suas raízes.
Este pé na terra é minha música uterina
E o espesso verde, meu medo mais bonito.
Nunca mais me ninaram assim os sonhos,
Nunca mais ouvi os gritos de anjos e demônios
Brincando insones na serra de Paracambi.
Por isso, subo sem pegadas o que nada está sob meus pés,
E nada mais em mim,
Tanto se eleva,
Quanto a serra mágica da minha infância.
Nenhum comentário:
Postar um comentário