quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O Mindlim do Flat 



  O que acontece ao adicto bibliófilo que, de susto, tem que enfiar cinco mil volumes  num, para tanto,  diminuto apartamento? Doa os livros. A resposta fácil  não dimensiona devidamente o heroísmo do ato. Nada simples a abstinência de quem deitou uma vida sobre essa paixão: os livros.  Desfazer-se assim de tantos amantes, num só golpe, imagino seja de um desapego semelhante à iluminação de São Francisco. Ou um sultão entregando as próprias esposas ao carmelo. E foi isso que aconteceu com Ricardo Guilherme. É certo que ele já faria a doação de qualquer jeito, prócere protetor das artes que é e tendo, na hierarquia de sua alma, a magnanimidade ascendência sobre todo o resto. Mas consta que uma mudança repentina para o bem viver da beira-mar acelerou um pouco o desprendimento.

  Aí Fortaleza ganhou um acervo sensacional que está ali, ao alcance de todos, na sala DOC TEATRO no Pascoal Carlos Magno. Outros livretos de menor valor também defenestraram-se.  E agora, no apê do nosso RG , o feliz visitante já pode avançar dois ou três passos sem se desculpar por derrubar uma pilha de alfarrábios...mas não pense ele em bailar. No máximo, pode se espreguiçar com moderação. Sim, porque depois de doado oitenta por cento dos livros, o apartamento de Ricardo Guilherme continua mais biblioteca do que casa. Porém, fino decorador, RG solucionou tudo suprimindo dos armários, da cozinha, das gavetas, de toda e qualquer cavidade nos móveis e eletrodomésticos, alguns ítens supérfluos como, por exemplo, louça, comida e água.  E com essa habilidade espacial de destronar Burle Marx, agora sim, ao acordar na manhanzinha das duas da tarde, o Mindlim do flat na beira-mar relata conseguir, sem qualquer esforço, avistar as jangadas já dormitando sossegadas à sua frente. Mas não vá provocá-lo com anedotas a respeito desses fatos. Ricardo tem mostrado certa irritação ao desmentir repetidamente a história de que alguém tentou alcançar o pó de café no armário sobre a pia e acabou soterrado pelos trinta volumes da Comédia Humana. Ele jura que isso é mentira, argumentando que  a vida real não pode ser tão metafórica assim, no que lhe dou toda razão. Bobagem também o que andam dizendo sobre a faxineira que só fez perder tempo tentando arrumar a despensa e acabou com cinco Proust na testa. 


  Entanto, Marcelo Maciel, a quem o próprio Ricardo Guilherme batizou, com a costumeira precisão, de nosso Holligan com coração de cambaxirra, me segredou o que aconteceu quando foi  tentar  preencher o vazio de sua corpulência na geladeira ricardiana. Marcelo, que não consegue mentir nem para salvar casamento, por isso, e só por isso, não trai, me garantiu que deu-se a seguinte conversação entre ele e seu  anfitrião enquanto este, debruçado no computador, ia armando-se duma progressiva impaciência:

_ Ricardo, cê disse que tinha um vinho bordeaux e um queijo camenbert aqui na geladeira...mas...

_ Você  se confundiu, querido...eu disse que tinha Victor Hugo, Goeth e Rabelais na geladeira...

_ Ah, sei...Então vamos àquelas prometidas Cervejas no frezzer...Ué, cadê?

_ Outra confusão sua. Falei: Cervantes no frezzer... CERVANTES!

_ Ô Ricardinho, te visitar é tão bom pra minha dieta! Desta feita, vai ter aqui  uma ... Salada, legume fresco, verdura??

_ Na gaveta de frios? Só... Salinger, Hume, Ionesco e Neruda.

_ Tem pelo menos um sanduíche ? Pão com manteiga?

_ Não. Só Nietzsche com Poe e Montaigne.

_ Tá bom,  então vai ser isso...onde eu acho um prato?

_ Prato também não tem... Tem Plauto.. abre a despensa e pega: cê quer um Plauto, um Plotino ou um Platão?!

_ Tem colher?

_ Tem Voltaire.

_ Sal? Pelo menos Sal?

_ Bota Sartre, bota Sartre e acabou-se!! Sabe de uma coisa? Eu vou fazer um milkShakespeare pra você se aquietar e pronto!  

_ Só isso?

_ Shaw!