quinta-feira, 18 de novembro de 2010

EQUUS


Meu desejo é teu corpo
No meu corpo deglutido.
Reinventarmo-nos espíritos de fogo
De qualquer espécie que nos aplaque os caprichos.

Amar-te, por exemplo,
É imaginar sermos o vento de uma raça forte de equinos.
Em cruza sinestésica de volumes e vazios,
Sermos o que somos do escopo desse bicho.

Teu cheiro de potro salga meus ouvidos,
Sinto teu peso todo
Pelo meu olho boçal.

Na minha boca ácida de dentes de ferro te enxergo a crina das axilas...
_ Meu reino por esse deus!
_ Meu reino por esse animal!

Enquanto tua língua vulcânica vira fria lâmina quando em mim caminha
E crispa-me a nuca onde baba tua fome ancestral
Eu grito a voz humana que queda e relincha:
­_  Ai de ti, Bucéfalo! Ai de mim, Parsifal!

Lâmina língua de corcel...
Passa e rasga poros grossos, espora na cara
Incitatus, terás o senado dum bordel
Eu, Equus, serei nada
Ou matarei onze cavalos.

Cavalgo-te ainda mais duzentas milhas.
Lambemo-nos disformes, rarefeitos.
Somos todo cheiro, couro, gozo, pêlos.
Provamo-nos os avessos.
E as rédeas?
 - às favas!
Meu cavalo,
Meu cavaleiro. 

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